Uma noite na caserna
por VasqsPor que um comunista colocaria um gato no armário?
Escalados pra fazer a vigília naquela noite, os recrutas Abílio e Pederneiras mantinham os olhos fixos na janela da guarita. Súbito, ouviram um barulho forte, que veio não de fora, mas de dentro do quartel, do escritório ao lado.
Espingarda em punho, os dois correram, atravessaram o corredor, a porta do escritório, e entraram. Entraram abaixados, cuidadosos, pé ante pé, olhos e ouvidos arregalados. Procuraram sob as mesas, cadeiras, armários, e pronto, ...era dali, de um dos armários, que vinha o barulho, alguma coisa que se mexia dentro.
Abílio aproximou-se lentamente e perguntou: quem está aí? Sem resposta, a porta entreaberta, ele puxou com cuidado com a ponta da espingarda. Foi então que um vulto saltou sobre ele, plóft! Parecia 3 quilos de massa de pastel, que bateu, arranhou sua cara e saiu, miando, desembestado, na velocidade de um coelho.
Como coelho não arranha e pastel não mia, só podia ser um gato. Um gato que em poucos segundos tinha vazado pela janela e já se embrenhava no meio do mato, no meio da noite.
Pederneiras bem que tentou, puxou a espingarda e atirou, uma, duas vezes. E errou, uma, duas vezes.
O barulho ecoou alvoroçando o quartel: luzes acendendo, homens na janela, correria.
Antes das 5 horas o sargento já tinha reunido a tropa toda, aos gritos:
- Pelotão, sentido!
Fez-se aquele barulho de coturnos batendo todos ao mesmo tempo: craec!
- Pelotão, descansar!, outro grito do sargento.
- Estou sabendo de tudo!
O pelotão todo também estava sabendo de tudo.
De novo o sargento:
- Um gato no armário do escritório assustou dois mariquinhas...E pior: conseguiu escapar!...
- Não é mesmo, recruta Abílio? - voltou-se olhando direto pro recruta Abílio.
- Si-sim, sargento, gaguejou o Abílio.
- Não foi assim, recruta Pederneiras? - falou agora olhando pro Pederneiras.
- Hã? Ah, foi, foi assim, sargento - respondeu o Pederneiras, sonolento.
O sargento andava de um lado pro outro, pisando firme, pensando no que dizer, e disse:
- Escapou, não é? Deixaram-o-gato-escapar... disse baixinho como que pra si mesmo.
- Preste atenção, pelotão - continuou - ... preste bem atenção na seguinte e importantíssima questão de cunho tático-estratégico.
Silêncio.
- Ok, era só um gato, apenas um gatinho inofensivo, assustado,... E assim mesmo ...escapou. Mas... - aqui sua voz subiu a 150 decibéis - ...E SE EM VEZ DE GATO, PELOTÃO, E SE EM VEZ DE GATO QUEM ESCAPOU FOSSE UM COMUNISTA?!
Mais silêncio, agora com arrepios.
- Hein, recruta Abílio, hein, recruta Pederneiras? - prosseguiu o sargento passando os olhos perscrutantes em cada um da tropa.
Então um deles lá no fundo ergueu a mão.
- Sargento – disse - um comunista cabe no armário?
Isso pôs o sargento mais vermelho que a bandeira do partido. Ergueu os olhos e rosnou:
- Idiota-imbecil. Estou propondo uma hipótese pedagógica. "Se", eu disse, "se fosse", no condicional, seu cretino.
Ato contínuo, outro ergueu a mão.
- Sargento! Existe gato comunista?
E antes que o sargento respondesse, um terceiro ergueu a mão.
- Sargento, se não tem gato comunista, os gatos de Cuba são o quê?
O sargento já parecia uma locomotiva, soltando fumaça por todos os orifícios: boca, nariz, orelhas e etc... até pelo etc.
Mas outro falou em seguida:
- Sargento, se era só um gato, e não um comunista, nem um gato comunista, nem um comunista gato, fim de caso, né?
- Muito bem... - reagiu o sargento - agora temos um espertinho! Como sabe que não foi um comunista que colocou o gato no armário?
- Desculpa sargento, mas... por que um comunista colocaria um gato no armário?
- Ah! Como se atreve o retruca me recrutar...hã... o recruta me retrucar?
O sargento estava realmente nervoso.
- Criatura ingênua - seguiu ele - idiota-irrecuperável, cretino-insolúvel, não sabe que eles fazem gatos engolirem escutas?!! Não sabe que põem bombas-relógio no intestino dos gatos?
- Ei, peraí, sargento, e se o gato entrou no armário só pra se esconder?, falou mais um sem sequer erguer a mão.
- Cala a boca!, fuzilou o sargento com voz seca. Outro espertinho!... Então me diz, criatura boçal, esconder de quem?
A essa altura a autoridade do sargento já estava à deriva. Foi quando um mais ousado emendou com uma voz esganiçada que parecia um... miado:
- Dos comunistas...
Essa o pelotão - e o Abílio, e o Pederneiras, não resistiram. Caíram na gargalhada, com o sargento roxinho da silva, vociferando:
- Cretinos, ordinários! Sentido! Sentido!
Deu uma pausa, respirou fundo, e soltou:
- COMUNISTAS! COMUNISTAS!
Publicado em 20/04/2026